Embarquei minha filha
Martha Medeiros
Julia não tinha mais do que três anos de idade quando escrevi um poema em que uma mãe se despedia de uma filha num cais. A mãe incentivava a filha a viajar para conhecer o mundo com os próprios olhos, já que certas emoções nunca conseguem ser descritas apenas com palavras. Foi um exercício poético de premonição, já que aos três anos minha filha não ia nem ao playground do edifício sozinha, muito menos viajaria. Mas eu já imaginava que aquela criaturinha, se possuía mesmo o meu sangue, haveria de ter curiosidade sobre o que acontece fora do próprio ninho.
Pois semana passada embarquei minha filha. Ela, com 15 anos, foi viajar com duas amigas da mesma idade. Foram para uma rápida aventura em outro país, onde outra mãe irá recebê-las. Embarquei-a não num cais (viajar de navio, hoje, só em cruzeiros, e pra mim não há aventura em turismo encarcerado) e sim num aeroporto, de onde saem (com atraso) os verdadeiros voos, aqueles que pressupõem uma certa audácia. Lá foi ela rumo ao desconhecido.
Tudo isso me fez lembrar de uma vez em que estive numa Feira do Livro em Brasília, conversando com uma pequena plateia de leitores. Uma senhora se levantou e disse que o poema que eu havia escrito sobre embarcar filhos havia mexido com ela. Sua filha estava querendo morar em outro país e ela não conseguia tolerar a ideia. A plateia então pediu que eu lesse o tal poema. Eu li. A tal senhora se comoveu, lacrimejou, mas seguiu não acreditando que uma mãe possa ser tão desprendida.
Não se trata de desprendimento, mas de amor, o mesmo que todas as mães sentem e que cada uma manifesta a seu modo. Algumas prendem suas crias, outras soltam e a maioria faz as duas coisas, conforme a exigência do momento. É o meu caso. Minha filha recebeu uma oportunidade da vida. Eu poderia recusar ou acatar. Acatei. Viajar promove a independência e a responsabilidade. Amplia nossos limites. Traz alegria e novidade pro cotidiano. Reforça nossa bagagem cultural. Dá parâmetro para comparações. Nos desamarra de nossas teorias claustrofóbicas e aumenta nossa auto-estima: estamos longe de casa e nos saindo bem!
Havendo possibilidade, tanto melhor que se comece cedo. Que se tome gosto pela busca de conhecimento. Que se compreenda que a emoção não pode ser uma experiência passada de boca em boca, mas que deve ser vivenciada por cada um, exclusivamente.
"Embarquei minha filha no navio e disse, minha filha, vai disse, minha filha vai descobrir o que há do outro lado do mar embarquei e disse, vai minha filha, descobrir o que há que não se pode contar disse, vai e olha com teus olhos o que amor nenhum pode detalhar vai, minha filha, sonhar e conhecer melhor o mundo para melhor navegar disse, vai, minha filha atravessar fronteiras e encontrar o que existe do lado de lá, eu disse vai, que eu fico te esperando aqui minha filha, eu fico te aguardando, eu disse, vai que eu guardo o teu lugar".
Domingo, 21 de janeiro de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.